Foi para ti que desfolhei a chuva para ti soltei o perfume da terra toquei no nada e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras e todas me faltaram no minuto em que talhei o sabor do sempre
Para ti dei voz às minhas mãos abri os gomos do tempo assaltei o mundo e pensei que tudo estava em nós nesse doce engano de tudo sermos donos sem nada termos simplesmente porque era de noite e não dormíamos eu descia em teu peito para me procurar e antes que a escuridão nos cingisse a cintura ficávamos nos olhos vivendo de um só amando de uma só vida
Venenos de Deus, Remédios do Diabo - Autor Mia Couto
Mia Couto Escritor da Beira, Moçambique. Considerado um dos nomes mais importantes da nova geração de escritores africanos de língua portuguesa.
Venenos de Deus, Remédios do Diabo é sonho e pesadelo. Verdade e mentira. Um antídoto para os solitários, onde todos vivem na solidão, narrado por uma sensibilidade sozinha. São diálogos supremos, que o comum dos mortais só consegue ter em uma conversa na vida e normalmente dá romance eterno.
"O médico Sidónio Rosa encolhe-se para vencer a porta, com respeitos de quem estivesse penetrando num ventre. Está visitando a família de Bartolomeu Sozinho, o mecânico reformado da Vila Cacimba. À porta, a esposa, Dona Munda, não desperdiça palavras, nem despende sorriso. É o visitante quem arredonda o momento, inquirindo: - Então, o nosso Bartolomeu está bom? - Está bom para seguir deitado, de vela e missal... A voz rouca parece distante, contrariada como se lhe custasse o assunto. O médico acredita não ter entendido. Ele é português, recém-chegado a África. Refaz a questão: - Perguntava eu, Dona Munda, sobre o seu marido.. - Está muito mal. O sal já está todo espalhado no sangue. - Não é sal, são diabetes. - Ele recusa. Diz que se ele é diabético, eu sou diabólica. - Continuam brigando? - Felizmente, sim. Já não temos outra coisa para fazer. Sabe o que penso, Doutor? A zanga é a nossa jura de amor."